O trabalho remoto.

Gestão de Equipas

Devido à pandemia COVID-19, foram implementadas medidas para abrandar o contágio e a propagação do vírus, e o termo “normal” foi redefinido para alguns conceitos laborais, em vários países.

Um deles é o teletrabalho, ou seja, trabalhar em casa para prevenir uma grande afluência das pessoas aos escritórios.

Há pessoas cuja atividade profissional assim o permite, outras que não. Como no meu caso, e no caso de 100% da minha equipa também é permitido, atualmente estamos todos em casa.

Tipicamente, eu já trabalhava um dia por semana em casa, portanto sempre tive experiência no conceito do Teletrabalho. Durante os primeiros dias da semana estava no escritório, e na sexta-feira, conseguia despachar o trabalho pendente da semana, pois em casa há menos focos de distração (como vamos já ver, para mim).

7 meses depois de ter vindo para casa, sei que: 

  • O horário de trabalho ficou mais alargado;
  • Faço 4 pausas em vez de 2, mas que são mais curtas;
  • Tenho muitas mais reuniões;
  • Chego ao fim do dia, mais cansado do que pré-pandemia.

Numa curiosidade, quando partilho esta teoria com outras pessoas em teletrabalho, a maior parte concorda comigo, no entanto, ainda tenho amigos e familiares, cujo teletrabalho não foi possível, que continuam a não acreditar que em casa se trabalha mais.

Amigos:

“Se fazes mais pausas durante o dia, como é que és mais produtivo?”

Eu:

“Sim, é verdade, porque vou à cozinha tomar um café. Depois vou buscar uma água ou um chá. Depois vou comer qualquer coisa…”

E continuo…

“Como faço isto sozinho, não tens como perder tempo a socializar, então as pausas são mais pequenas. E se não tiveres cuidado, muitas vezes até almoças em frente ao computador.”

Mas tenho noção que estes “problemas” são meus e de pessoas com um nível de comprometimento semelhante ao meu.

Recentemente tive uma situação que apresenta uma perspetiva diferente do teletrabalho. Um cliente solicitou uma intervenção imediata numa pessoa (com 25 anos de idade, e 2 de experiência profissional), sob pena de a substituir, pois ela não se tinha adaptado a trabalhar remotamente. 

Não aparecia nas reuniões matinais com a equipa, não conseguia fazer a gestão do seu tempo, e obviamente, como não estava sintonizado com a equipa, os níveis de desempenho baixaram a níveis críticos. Com exceção da substituição, ela já sabia deste feedback, pois o seu tech lead já lhe tinha passado.

Fomos falar com ela com um plano de omitir o tema da substituição, para não comprometer a motivação:

Nós:

“Então como é que te tens sentido com o teletrabalho?”

Ela:

“Tive alguns problemas de gestão de tempo, mas já estou a corrigir, e este mês já vamos ver mudanças positivas.”

Nós:

“Sim, isso é bom, mas podes detalhar o que foram essas questões de tempo? Perguntamos isto porque temos um feedback que o teu desempenho baixou, e pior do que isso não estás sincronizado com a equipa.”

Antes de passar à resposta, sublinho só que é mesmo muito importante ter inteligência emocional, para segurar o pensamento uns minutos antes de o verbalizar. 

Ela:

”Sobre a gestão de tempo, como ficava aí umas 2 a 3 horas a trabalhar depois de jantar, aproveitava para dormir de manhã.”

Nós:

“Mas isso estava alinhado com o resto da equipa? É que ao faltares às daily meetings de manhã, obviamente que baixa o teu desempenho.”

Ela:

“Não estava. Mas sobre o desempenho o problema é outro. Eu como voltei para casa dos meus pais, aqui tenho mais distrações: É a minha família que faz muito barulho, é a minha irmã que entra aqui no quarto, e depois é o computador num lado, e a Playstation noutro.”

(silencio…)

Respirei fundo. Continuei a respirar fundo muitas vezes, a tentar perceber se tinha sido um pesadelo, ou se tinha sido mesmo verdade. 

Infelizmente foi mesmo verdade, mas esta não é uma altura de dispensar ninguém, ainda por cima, sempre foi uma pessoa com um bom feedback.

Então respondemos:

Nós:

“Bom, pede alguma compreensão à tua família que precisas de mais silencio. Sobre a tua irmã, fecha a porta à chave, e sobre a Playstation, desliga-a e guarda-a num armário na garagem.”

E continuamos… 

“Nós sempre tivemos um bom feedback sobre ti, e agora ficou claro que este último feedback está relacionado com uma má gestão do teletrabalho. Tem mais atenção a estes pormenores, e estou certo que estes resultados vão aparecer em breve.”

Marcamos follow-ups semanais para ver o progresso da situação. Como foi esta semana, daqui a 3 semanas contar-vos-ei em que resultou. 

O objetivo deste artigo foi apresentar perspetivas diferentes sobre o tema, e as conclusões que se podem extrair dele são:

  1. Se estiver em teletrabalho e comprometido com o projeto: cuidado, é importante não deixar o horário alargar-se demasiado;
  2. Se estiver em Teletrabalho e sente um desempenho baixo: cuidado, verifique se não tem demasiadas distrações;
  3. Se não estiver em Teletrabalho, tal como em tudo na vida, não julgue todos pela a parte, nem a parte pelo todo.
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Last modified: Dezembro 19, 2020