A ansiedade da entrevista, o planeamento da mesma e a importância dos rins.

Recrutamento

“Sinto-me nervoso”

As palmas das mãos estão a suar, a garganta seca, o coração está meio acelerado.

“Preciso de água. Não, preciso é de apanhar ar. “

Estou a bocejar. Que sono, devia ter dormido mais um bocado.

“Será que ainda vou a tempo de adiar, ou mesmo cancelar?”

Se calhar nem quero assim tanto esta oportunidade.

“Não! Vamos lá, e que seja o que tiver que ser!”

Estes são os sentimentos que, para mim são normais sentir antes de uma entrevista. São sinais de nervosismo e sobretudo ansiedade.

Uma entrevista é um momento onde alguém vai decidir se eu tenho o perfil que procuram. E tudo num espaço de 1 hora. 

Além da parte técnica, vou ser avaliado se estou com uma boa postura, com uma boa energia, se vou passar confiança, se estou apresentável, se sou capaz de criar empatia, entre outros.

E eu concordo porque eu tenho de ser capaz de trabalhar em equipa, conseguir relacionar socialmente e perceber se me vou enquadrar nos valores e cultura da empresa.

Agora, o receio da parte técnica também tem a sua quota parte no aumento do nervosismo, porque eu não conheço o que vou enfrentar e se tenho conhecimentos para isso. 

Mesmo com experiência como sénior, e sentindo que sou bom no que faço, porque costumo entregar dentro do prazo e com qualidade, não sei se na nova oportunidade vou aplicar o que já sei fazer.

Sendo junior, tenho receio do que é que significa a palavra “trabalhar”. Eu até fiz alguns trabalhos académicos, mas será que os fiz com a qualidade que vai ser exigida de mim?

Então, como é que posso reduzir essa ansiedade, e este nervosismo?

Não é fácil, mas é possível.

Numa das empresas onde trabalhei, o processo de entrevista começou quando concorri a anúncio online, e foi composto por 4 etapas. 

Antes de me candidatar, fui pesquisar o que é que a empresa fazia, quais os mercados que atuava, perguntei por referências. Gostei da informação que obtive, e como era mesmo aquela oportunidade que eu procurava, candidatei-me.

Depois de receber o e-mail para marcar a primeira entrevista – a entrevista de screening –  fui ler sobre mais sobre a empresa, e fui ler algumas dicas para uma boa entrevista:

  • Técnicas para uma boa postura (como transmitir confiança)
  • Técnicas para criar boa empatia (controlar o sorriso e ter consciência da escuta ativa)
  • Escrevi resumos do que tinha sido a minha carreira até à data
  • Na noite anterior dormi bem, para ir calmo.
  • Tive cuidado em perceber qual era o dress code da empresa, e assegurei uma apresentação adequada.

Cheguei à empresa e percebi que tinha acertado no dress code, um look casual tinha sido a escolha. Para mim ter uma apresentação adequada é ponto prioritário, mas optei por expor este tema aqui porque, agora que estou do lado do entrevistador, já tive alguns candidatos que apareceram em mangas cavas, camisolas de clubes e outros ainda de pijama…


Para os que não acreditam, sim é verdade, já tive várias entrevistas em que os candidatos escolheram essa indumentária, inclusive tive uma situação que uma pessoa da equipa foi trabalhar com a camisola da seleção nacional. Como não julgo ser apropriado, chamei-o a atenção.


Depois da entrevista de screening, recordo-me que tive um tempo sem resposta, então enviei um email à pessoa que me tinha entrevistado a solicitar feedback.

Após algum tempo, marcaram-me uma segunda entrevista, com um psicólogo. Pensei:

“Será que a minha entrevista correu assim tão mal? Só podem ter achado que eu tinha alguma necessidade de consultar um psicólogo…”

Bom assim foi, e fui ter a uma casa, no centro da cidade com uma arquitetura antiga, e quando me abriram a porta, mesmo com pouca luz, a primeira visão era uma escada daquelas antigas em madeira, que terminava num guichet com aqueles vidros foscos trabalhados.

A meio das escadas, olho para cima, e vejo um homem que já devia ter contado pelo menos 65 primaveras na frente do guichet. Ele cumprimenta-me, sorri, e imediatamente brilha um dente de ouro. 

Pensei:

“Tenho 2 hipóteses, ou desço já, ou se subo, é provável que amanhã vá acordar numa banheira cheia de gelo, e com um curativo na zona do rim!”

Mas claro, arrisquei, e passado 3 horas, foi uma extensa, mas agradável conversa, com alguns exercícios para avaliar o meu perfil. O psicólogo partilhou ainda que era rotina na empresa, cargos mais altos passarem por aquela etapa.

No dia seguinte recebi uma chamada para marcar uma reunião com o “João”, diretor de IT.

Naquele momento, já tinha o nome do entrevistador, e já sabia que a empresa também levava muito a sério as entrevistas. Também tinha consciência que esta terceira etapa seria técnica.

Então fui procurar mais informações na internet sobre o “João”, e encontrei várias dicas que me ajudaram a quebrar algum gelo. Revi ainda conceitos sobre os temas que achei que iríamos abordar, e fui pela segunda vez ao escritório para a tal terceira entrevista.

A entrevista correu bem, foi fluida com foi para várias questões técnicas, às quais fui respondendo com assertividade, porque estava preparado para elas. 

Uma parte importante é não mentir nem arranjar desculpas por não saber a resposta, principalmente não culpar a empresa atual ou o chefe por não permitir a evolução. Concluo isto porque, quando um candidato coloca a responsabilidade nos outros por não saber fazer, penso:

“Se é assim importante para ti, porque é que não foste aprender a fazer isso fora de horas?”

Voltando à entrevista técnica, como consegui conquistar a confiança do diretor de IT, passei à última etapa: conhecer o CEO da Empresa.

Esta última etapa serviu para colocar as minhas soft skills à prova, nomeadamente para comprovar os meus níveis de resiliência e motivação. 

O CEO estava ali a contratar um quadro superior, e naturalmente ele quis perceber o meu nível de compromisso e potencial lealdade, com perguntas para aferir isso mesmo. Lembro-me que algumas delas me fizeram sentir desconfortável, mas o objetivo dele era esse mesmo.

Lembro-me também de sentir que falei demasiado, ter bebido muita água e que todo este processo tinha parecido uma guerra, na qual eu senti que saíra derrotado.

No final, o CEO disse que tinha apenas mais uma candidata no processo, e que iria tomar uma decisão nos dias seguintes, e saí com a sensação que o processo tinha ficado por ali.

No entanto, e como também já deixei um spoiler lá atrás no texto, sim, fui eu o escolhido… E mantive os 2 rins!

Resumindo, sinto que (i) a boa preparação para as várias etapas, (ii) demonstrar que queria bastante a vaga, e a (iii) empatia que conseguir ir criando, permitiram que conseguisse um novo capítulo na minha vida.

E por aí, já tiveram alguma entrevista do género?

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Last modified: Novembro 25, 2020