O meu formato de entrevista e respetivos improvisos.

Recrutamento

Conhecer alguém e avaliar o seu enquadramento para uma posição em apenas 1 hora, vai contra a natureza do ser humano. Por vezes estamos anos com alguém e não o conhecemos verdadeiramente, quanto mais numa hora.

Por outro lado, há estudos que dizem que precisamos apenas de 7 segundos para o nosso instinto atuar e esta capacidade humana já vem dos primórdios da humanidade.

Antes de haver idiomas, nós tínhamos que conseguir rapidamente entender as intenções de outros humanos que nos cruzavam o caminho. Se vinham por bem, se vinham por mal, se eram de confiança ou eram suspeitos. Um erro de leitura ou de instinto, podia significar a sua vida e da sua família.

Hoje, o nosso instinto por vezes está errado. Pode acontecer uma má leitura nossa, ou uma má emissão da outra pessoa, e portanto o melhor é tentar não fazer grandes juízos nos tais primeiros 7 segundos.

Assim, criei um formato de entrevista sempre igual:

  1. Apresentação dos Entrevistador;
    • Como começou a minha carreira; 
    • O que aconteceu durante a carreira que me fez levar ao dia de hoje;
    • O que faço hoje na empresa e a evolução que tive desde que entrei;
    • Contexto do Projeto em causa;
  2. Apresentação do Candidato;
  3. Conversa;
  4. Inversão de Entrevista;
    • Espaço para dúvidas ou questões que não tenham sido abordadas;
  5. Feedback rápido;

O ponto 1 tipicamente quebra bastante o gelo, porque se o candidato vem com algum nervosismo porque vai ser questionado sobre si mesmo, a interação começa pelo entrevistador a falar dele. A intenção é que o candidato se sinta mais tranquilo e que aquela hora não seja só a falar sobre ele.

Quando sinto que o candidato continua muito nervoso, então capturo a atenção novamente para mim e para algo que fiz, e por vezes até mudo de assunto para hobbies ou algo semelhante para baixar a pressão.

Em tempos pré pandemia, tive uma situação que me ficou na memória: numa entrevista a candidata não estava a conseguir responder à maior parte das questões. E a cada pergunta ela ficava mais travada no discurso, mais nervosa e mais ansiosa.

Tentei virar várias vezes o assunto, até mesmo falar um pouco de atividades de lazer. Não resultou, cada vez ficava mais ansiosa, até que começou a ficar com lágrimas nos olhos.

Parei imediatamente a entrevista, e colocando o foco em mim disse-lhe:

“A sala está a ficar muito quente, nem me estou a sentir muito bem. Deve haver um problema com o AC.”

E continuei…

“Achas que podemos fazer uma pausa e ir lá fora apanhar um pouco de ar?”

Ela aceitou e fomos.

Já lá fora, e mais calma, entendi que ela tinha colocado uma esperança muito grande naquela oportunidade, porque tinha um part-time enquanto estudava na faculdade e precisava de maior capacidade financeira para ajudar em casa.

Entendi o ponto dela, e marcamos uma segunda entrevista para outro dia. (Apesar de estar mais tranquila na segunda oportunidade, esta candidata foi um No Go)

Esta estrutura e formato de entrevista tem nos trazido muitos feedbacks positivos:

“Nem parecia uma entrevista. Parecia que estávamos a trocar umas ideias num café”

“Nunca fiz uma entrevista onde o entrevistador se apresentasse com tanto detalhe. É bom conhecer quem nos está a conhecer a nós.”

“Ficou tudo muito claro, fiquei a conhecer o que vou fazer e com quem vou trabalhar.”

(Depois de um No Go

“Muito obrigado pelo feedback, apesar de não continuar no processo fiquei a entender claramente onde tenho de melhorar, e diretamente me avaliou, e não por um email. Além disso, quando desligar não vou ficar com ansioso pela resposta. Muito obrigado!”

Também já me trouxe alguns dissabores (“Porque é que perdi 1 hora do meu tempo?“), com os quais aprendi bastante, mas prefiro focar nos positivos, principalmente nas mais de 100 pessoas que contratei para trabalhar comigo diretamente.

E vocês, gostariam de ser entrevistados por mim?

Partilhe

Last modified: Outubro 31, 2020