Vou ser dispensado? Mas eu quero um aumento!

Gestão de Equipas

Vou ser dispensado? Mas eu quero um aumento!

Sabem aquela frase, “desde que vi um porco a andar de bicicleta, acredito em tudo”?

O que eu tenho aprendido ao longo destes anos de experiência é que, independentemente de estar bem preparado e de já ter ouvido um pouco de tudo, há sempre uma boa possibilidade de voltar a ser surpreendido.

Nos primeiros dias da primavera, em março, recebi um feedback menos florido de uma pessoa da minha equipa, o “João”: 

O Cliente indicou:

“O desempenho e entrega não está adequado à nossa expectativa, e a postura e atitude não estão longe da sua senioridade.”

Então o cliente pediu para substituir o “João”…

Após alguma negociação com o cliente, humanizando o consultor, conseguimos combinar que iríamos desenhar um plano de ação para realinhar expectativas, e recuperar o “João”.

Marquei uma reunião individual com o consultor para lhe passar a mensagem. Estas conversas têm sempre um grande desafio que é: comunicar o feedback, sem desmotivar a pessoa.

Então eu começo:

“Recebemos um feedback teu, do nosso cliente, que indica que o teu desempenho não está alinhado com a expectativa dele.”

Nisto sou interrompido pelo João:

“Têm a certeza que este feedback é sobre mim? É que eu recebi um feedback recentemente que o cliente estava bem contente comigo.”

Obviamente paramos a reunião para confirmar, e alguns minutos depois, já tínhamos a confirmação que o tal feedback era mesmo do “João”.

Além de ficar envergonhado com o cliente, a situação tinha acabado de ficar pior com o consultor, porque além de passar um feedback menos bom, agora tínhamos de passar um feedback menos bom a alguém que achava que estava tudo maravilhoso.

Então continuo a reunião:

“Bom, João, nós confirmamos que o feedback é mesmo teu.” 

E ele responde de imediato:

“Não pode. Vejam, está aqui a mensagem.”

A mensagem era de outubro do ano anterior, e só indicava pontos de melhoria.

Além de não ter percebido a mensagem do cliente, a mesma já tinha 5 ou 6 meses, e como tal, aqui deixou logo algumas dúvidas no ar, relativamente à seriedade dele. 

Como acreditamos nas pessoas, e até alguma situação mais critica, continuamos:

“O feedback fala em hardskills e softskills abaixo da expectativa, mas falamos com o cliente, e temos que agir rápido. Como tal temos que definir um plano de ação.”

Ele responde:

“Bom, não estava a contar com esse feedback. Até porque eu preciso de falar convosco acerca de uma revisão no salário para ficar mais folgado nas contas do mês.”

O meu colega, reparando que eu estava a um minuto de estourar, tomou a palavra e disse: 

“João, o foco não é, nem pode ser esse. O foco é um plano de ação para recuperar a confiança do cliente e garantir a tua evolução.”

Neste momento agradeci ter o meu colega de gestão na reunião, porque aquele descaramento deixou-me a ferver, e ia perder a cara e a razão.

Depois de ter andado para trás e para a frente, baseando-se numa má interpretação da mensagem de outubro, e depois de ouvir um feedback negativo, ele ainda decidiu que era uma boa altura para renegociar salário.

Acabamos por conseguir chamá-lo à razão, e definir um plano de ação para corrigir os pontos levantados, mas naturalmente o seu foco não estava no local certo, acabou por não funcionar, e ao fim de um mês saiu.

Mais tarde partilhei esta história com alguém fora da área de IT, que me alertou que o salário podia ser realmente um fator que lhe estaria a diminuir a performance. Respondi que concordaria se não fosse uma pessoa com um salário muito superior a alguns agregados familiares com dois titulares que eu conheço. 

No entanto, é importante concluir que por vezes, o fator de baixo desempenho pode ser algo que não compreendemos, mas que temos de respeitar e se possível ajudar a resolver (esta teoria – o cisne preto – foi estudada pelo Chris Voss e apresentada no livro “Não se fique pelo meio termo.“).

Continuo a considerar que ter um plano de ação era uma boa solução, e tanto é que já o fiz noutras situações de retenção, que acabaram por ter um final mais bem-sucedido.

Talvez eu seja de uma escola antiga, portanto questiono-vos: o que fariam no nosso lugar?

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Last modified: Outubro 27, 2020